Ele: Os teus dedos são fininhos. Qual é o teu número de anéis? Nove?
(após 5 segundos de silêncio)
Agora em versão um homem e duas mulheres (vá, um bebé) cá em casa. Vence a maioria.
Bastou um pequenino corte no dedo para uma ida à farmácia, para um argumento gigante que só precisava de comprar "pensos-rápidos grandes", para uma ferida com sangue que não estancava, para ter que pedir boleia ao colega para o hospital, para companhia do mano na sala de espera, para uma hora e meia sentada enquanto aguardava que me chamassem, para um médico estagiário divertidíssimo comigo e desejoso de poder treinar medicina no meu dedito, para uma sala com dois médicos e três enfermeiros, para me perder nos corredores do hospital feita loura-burra, para um taxista que vai calado o caminho inteiro e quando me deixa em casa subitamente diz "este país precisa de uma revolução, mas não é de cravos, é de balas, começa-se na Assembleia da República, só preciso de mais uma pessoa, pode ser uma mulher". Balanço da coisa, dois pontos e uma vacina contra o tétano.
Um colega meu já me cantou esta música de manhã. Chove na sala de minha casa, e chove no trabalho mesmo em cima da minha secretária. Devo atrair este tipo de coisas. Agora vou só ali ser amiguinha do Phil Collins para ver se tiro algum sentido disto, e já volto.
Quero TUDO. Tudo. As cuecas, os soutiens, os corpetes, os sapatos, as botas, os colares, as asas, os meninos de abdominais definidos a fazer ginástica lá para o terceiro minuto do vídeo, tudo. Até as meninas boazonas podem vir que eu depois como sou querida faço a distribuição aqui pelos leitores masculinos do blog. No espírito de Natal, até deixo o Capitão Microondas ser o primeiro a escolher.
Ele diz que eu faço isto com frequência e que é a grande prova da minha teimosia. O que ele ainda não percebeu é que eu preciso de dizer "não" muitas vezes de forma a ganhar tempo para inventar um argumento qualquer mirabolante que justifique o meu ponto de vista absurdo. Mas essa parte eu não lhe vou explicar. :)
Foto: Associated Press
"You want a perfect girl,
and I look shitty today,
I know you’re gonna dump me again
And I am gonna cry."
Mas dito com uma voz tão querida e a música é tão gira, que só me dá vontade de sorrir!
Chegámos às praias, vimos aquilo tudo a pé, andámos quatro horas dentro da floresta, e regressámos ao ponto de encontro para voltarmos para a cidade. Tínhamos andado para aí uns 20 minutos numa estrada assustadora e estreita quando o senhor percebe que se tinha enganado e resolve fazer inversão de marcha, numa manobra em que eu acreditei mesmo que íamos cair ribanceira abaixo. Tinha-se enganado, dizia ele. Na realidade ele bem podia dizer ou fazer o que quisesse, nós não tínhamos a menor ideia de onde estávamos e só se viam árvores à volta! Pouco depois chegámos a uma estrada mais larga que me pareceu familiar, o senhor faz uma curva para a esquerda, e temos esta conversa:
Eu (a medo): Desculpe, mas eu tinha ideia que nós tínhamos vindo do outro lado, não devíamos ter virado à direita?
Senhor: Vou mostrar-vos um segredo.
Eu (a fingir um ar muito normal): A sério? Que giro, o quê?
Senhor: Uma coisa na floresta muito importante para o povo Maori mas que ninguém conhece.
Oi? Se ninguém conhece e não estava nos planos, deixe lá que nós passamos bem sem isso. Mas o senhor lá insistiu. Passam-se mais 15 minutos, e de repente vejo-o a meter a mão atrás do banco, a confirmar se lá tinha qualquer coisa. Quando olho para baixo, vejo aos meus pés três garrafões de gasolina e duas caixas com bobinas de fita adesiva. Aí é que o cenário me pareceu familiar. Na véspera de embarcar para a Austrália, tinha visto um filme de terror chamado Severance/Mutilados, em que uma mulher acabava presa a uma árvore com fita adesiva, regada com gasolina, e queimada viva. Pronto, deixei logo de achar piada à brincadeira. Eventualmente o senhor lá pára a carrinha no meio de uma estrada deserta e diz:
Senhor: Deixem tudo no carro e venham comigo.
Nós: Desculpe? Porquê? Onde?
Senhor: Já disse que é segredo, não tragam nada e saiam do carro.
A minha mãe só dizia “Não vamos Belota, não saímos daqui”. Mas lá a convenci, depois de discutir com o senhor que saía mas levava as coisas comigo. Mais não fosse dava jeito ter identificação quando encontrassem os nossos corpos 15 anos depois (piada parva, espero que a minha mãe não esteja a ler isto). Vamos até à entrada de um trilho com arbustos cerrados e o senhor a insistir “é por aqui, são só 10 minutos a pé”. Aí é que desistimos mesmo. Não se via nada para dentro das floresta, o senhor que não dizia o que nos queria mostrar, não passava ninguém naquela estrada horrível, e eu só pensava “bem, nós somos duas, será que conseguimos lutar com este homem enorme?”. Batemos com o pé e voltámos para a carrinha. O caminho de três horas até à cidade foi feito com o silêncio mais constrangedor de sempre. O senhor percebeu com toda a certeza que não confiávamos nele e que tínhamos tido medo. Só abriu a boca no final, enquanto saíamos, para dizer “era a árvore mais antiga da floresta, perderam uma coisa muito especial”. Eu confesso que quando ele disse isso respirei fundo. Era só uma árvore. Ok. Não era perigoso (vá, vamos acreditar que não era) mas também não tínhamos perdido nada do outro mundo. Pelo sim pelo não, decidi naquele momento que ia deixar de ver tantos filmes de terror.
As paisagens, a floresta, as praias, tudo aquilo compensou as dúvidas que tivemos. Posso seguramente afirmar, que essa pequena viagem foi das melhores coisas que já fiz na minha vida. Se alguém quiser repetir, falem comigo que eu tenho o contacto de um senhor grande e simpático que vos leva num surf shuttle... ;)